23/11/2007
Proibição do uso de Amianto recebe o apoio
da Assembléia Legislativa SP
Considerado pela indústria um produto de grande
importância, devido às suas propriedades,
como o isolamento térmico, a durabilidade e a flexibilidade,
além de ser de difícil combustão
e, principalmente, de baixo custo, o amianto ainda é
largamente utilizado no Brasil. Essas características,
no entanto, escondem o fato de que o uso da crisotila
(mineral que lhe dá origem) é capaz de provocar
diversas doenças respiratórias graves, podendo
chegar ao câncer e à morte.
Pela
gravidade dos males que causa, como já ocorreu
em outros estados brasileiros, a Assembléia Legislativa
do Estado (Alesp), em meados de 2007, aprovou a Lei
nº 12.648, de autoria do deputado Marcos Martins
(PT), que proibe o uso do amianto em São Paulo.
A lei foi finalmente sancionada pelo governador José
Serra, mas uma ação liminar impetrada
pela Federação das Indústrias do
Estado (Fiesp) e concedida pelo Tribunal de Justiça
de São Paulo suspendeu sua efetividade.
À
luz desses conflitos, centenas de representantes se
reuniram no dia 13 de setembro de 2007, em Audiência
Pública, no plenário Franco Montoro, da
Alesp, com o objetivo de reafirmar e aprofundar as críticas
à utilização do amianto. Promovida
pelo propositor da Lei, a audiência teve a participação
de outros parlamentares, especialistas, sindicatos,
federações, entidades e familiares de
trabalhadores vítimas da contaminação
por amianto.
Durante
o evento, uma crítica contundente veio do deputado
estadual Adriano Diogo (PT). Segundo o parlamentar,
a liminar concedida pelo TJ-SP à Fiesp, para
suspender a efetividade da Lei, foi um arranjo
entre os setores que defendem a utilização
do amianto.
O
deputado Adriano Diogo assentou sua denúncia
na informação de que o ex-governador Geraldo
Alckmin já havia vetado a mesma Lei, mas como
o veto foi derrubado pelo plenário da Assembléia
estadual, o atual governador não poderia vetá-la
novamente. Por isto, a Fiesp entrou com o pedido
de liminar de efeito suspensivo e o Governo Estadual
ainda não contestou a concessão do Tribunal,
denunciou Diogo.
O
Desemprego como justificativa
Contundente
também foi o pronunciamento da Auditora Fiscal
do Ministério do Trabalho e Emprego, Fernanda
Giannasi. A auditora representava a Delegacia Regional
do MTE em SP e afirmou que ainda há um núcleo
de empresas resistentes em banir o amianto, bem como
substituí-lo por produtos de melhor qualidade,
sob a justificativa de que isto poderá gerar
o desemprego e o caos.
Estima-se
que no Brasil, o quarto maior produtor mundial de materiais
com amianto, a produção anual chegue a
250 mil toneladas. Entretanto, o trabalhador, principal
vítima exposta ao produto, desconhece os riscos
de seu uso.
Segundo
Giannasi, atualmente, existem cerca de 4 mil acordos
extra-judiciais que vêm sendo aplicados por essas
empresas. Por isso, temos que derrubar a liminar
[obtida pela Fiesp] e fazer valer as leis federal, estadual
e municipal, enfatizou Fernanda.
Mas,
para o presidente da Associação dos Juízes
Federais, Ricardo do Nascimento, os juízes do
Brasil estão cansados de condenar as indústrias
pelo uso do amianto. Para reverter este triste quadro,
Nascimento considera que somente com a mobilização
da sociedade será possível se chegar a
uma decisão definitiva.
Já
o ex-diretor da Organização Internacional
do Trabalho (OIT) e especialista em saúde pública
e ocupacional, o médico René Mendes, afirmou
que as indústrias deveriam ter um posicionamento
associado à saúde do trabalhador. Os
argumentos apresentados são de ordem comercial,
pois o problema deixou de ser médico e passou
para a esfera política e econômica,
criticou René.
As
análises médicas
O
amianto, também conhecido como asbesto, é
reconhecido internacionalmente como uma substância
cancerígena. Proibido pela Convenção
162 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), há registros desde a década de
80 dos primeiros trabalhadores adoecidos por exposição
ao cancerígeno. Quando inalado, deglutido ou
ingerido, causa câncer de pulmão e outras
doenças associadas ao tecido pulmonar.
Outra
doença provocada pelo uso do amianto é
conhecida por especialistas como Mesotelioma de Pleura
que é o tecido que reveste o pulmão
, um tumor maligno que mata em até dois
anos após a confirmação do diagnóstico.
De
acordo com o médico e pesquisador da Fundação
Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina
do Trabalho (Fundacentro), Eduardo Algranti, vem aumentando
o registro de incidência do Mesotelioma de Pleura
em trabalhadores desde 2003 e tem crescido o número
de casos na cidade de São Paulo.
Nos
próximos 15 anos iremos nos deparar com o aumento
da doença com mais frequência, ressaltou
Algranti em sua fala na audiência pública
na Alesp.
No
ambiente de trabalho, o amianto pode ser encontrado
na fabricação de telhas, revestimentos
de pisos, tintas especiais, isolantes térmicos,
metalúrgicas, na indústria automobilística
na fabricação de freios, juntas
e revestimentos de embreagens, entre outros.
Vítimas
do amianto
De
acordo com o Presidente da Associação
Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), Eliezer
João de Souza, são centenas de óbitos,
mas que não aparecem nas estatísticas
oficiais de doenças e mortes no trabalho. Isto
se deve à pressão exercida pelas indústrias
que defendem o uso do amianto, afirmou o presidente
da Abrea.
Eliezer
também é vítima da doença
provocada pela utilização do amianto e
desde 1997 é aposentado por invalidez, tendo
trabalhado 13 anos no acabamento de corte do amianto.
Lá na empresa todo mundo trabalhava no
meio da poeira, respirando o amianto e nunca ninguém
alertou que aquela substância provocava câncer,
denunciou.
Ainda
segundo o presidente da Abrea, em pesquisa realizada
por uma empresa líder no mercado de telhas e
caixas d´água, mais da metade, entre 1200
trabalhadores das cidades de São Caetano do Sul
e Osasco, na Grande São Paulo, apresentam algum
problema em decorrência da utilização
do amianto.
A
própria empresa reconhece os malefícios
que o amianto pode causar. Nessas grandes cidades industriais
de São Paulo, 53 por cento dos trabalhadores
que, de alguma forma, utilisam o amianto têm algum
tipo de doença provocada por esse material,
afirmou Eliezer.
Outros
exemplos de adoecimento
Os
aposentados Ivo dos Santos e João Batista Mome,
que trabalhavam na marcenaria da mesma empresa que realizou
a pesquisa, no setor que lixava e polia peças
de amianto, também são portadores de Asbestose
doença em que as fibras do amianto alojam-se
nos alvéolos e dificultam a respiração.
Segundo
João Batista Mome, de 78 anos, após a
sua aposentadoria, em 1977, o exame de raio-x feito
em um laboratório não constatou nenhuma
irregularidade. O aposentado descobriu a doença
somente depois de dezoito anos, quando realizou exame
na Fundacentro. Não queria ter esta doença,
pois sinto muita falta de ar e dores de cabeça
e, de anos para cá, os sintomas vêm piorando,
relatou João Batista.
O
mesmo aconteceu com Ivo dos Santos, de 71 anos, que
entrou no mesmo setor da empresa seis anos depois que
João Batista e se aposentou em 1986. Também
descobriu que tinha a doença dez anos depois.
Nunca fomos alertados que era um veneno e até
hoje dizem que o amianto é um pó de arroz
que não faz mal, comentou Ivo.
Construção
de casas da CDHU
Segundo
Estella Maris Belemjian, arquiteta, que na audiência
pública representou a Superintendência
de Projetos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional
e Urbano (CDHU), empresa do Governo Estadual, vinculada
à Secretaria da Habitação, que
produz moradias populares destinadas à população
de baixa renda, nas construções de casas
da CDHU não é utlizado qualquer material
que contenha amianto.
A
CDHU, desde o ano de 2001, com a existência da
Lei 13.113 que proibe a utilização do
amianto, especificou que os componentes que continham
amianto, como telhas e reservatórios para água,
deveriam ser substituídos por fibra vegetal.
Se
for constatado em alguma obra da empresa a utilização
do amianto, isto deve ser denunciado por que estaria
em desacordo com o projeto da companhia, finalizou
Estella.
Fonte: Revista Proteção
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